Archive for the ‘Lírica’ Category

Aos Amigos

Tuesday, June 5th, 2007

Ainda Que voem distantes

Baterá sempre, nesses rostos,

Um sonho constante,

Num pulsar leve e mecânico

Vibrante no delírio

E circular entre os dedos

E saberemos sempre,

Na surdez carente dos nossos corações saudosos

Que entre os invernos de solidão

Sempre terão as primaveras

Pra renascer nossa incansável juventude

E depois, ainda,

Vem num abraço simples o significado de amar

Inebriado no calor do verão

 

O outono já vai passar

 

Ninho

Wednesday, May 23rd, 2007

  

Meu corpo:

Desfalecido,

Desmaiado,

Bêbado,

Suado,

Rasgado,

Feito um cadáver indigente,

Um pedaço meio morto do meio peito,

Como um anjo das asas amputadas

E dois olhos cegos diante do mundo e das cores.

 

Assim estou nesse lugar

Assim me quero

Quero meu lugar

 

Me encontro onde me perco

Onde me pertenço e me perpetuo

E me esmago em anseios

Mas me agrupo no ânimo

Do pouco que sobrou do resto já experimentado que ainda virá

 

Me deixe,

Feito louco

Mendigo

Rechaçado nesse lugar

Feito menino

Feito cinzas

Feito-me eu.

 

Me deixe

Feito louco

Mendigo

Amordaçado no seu olhar

No seu colo que me colhe

Pra eu vingar

 

 

Oração a Marte

Tuesday, October 31st, 2006

Cala-te, Marte.

Cala-te

Que essa guerra não te pertence.

 

Cala-te, Marte,

Que essa guerra não te pertence,

Essa é demasiada humana,

 E vossa ciência não é competente.

Cala-te, Marte,

Dessa guerra te aparte.

 

Aqui não há espadas,

Nem escudos,

Não há corpos em agonia,

Nem mortos,

Enfermeiras,

Minas.

 

Eis a guerra demasiada humana,

Donde a alma não tem amparo,

E lábios são metralhadoras do mais vil escárnio.

Guilhotina e fogueira,

Tempestade de lágrimas

E pântanos de cadáveres de dignidades

 

Não te lambuzes com esses sofrimentos.

Não, Marte,

Não!

Gemem e suspiram,

Rangeres de dentes constantes,

A loucura é presente

Até no menor ato de amor e ódio.

   

Não te compres com festim,

Não te deites para campo de batalha,

Pois essa guerra não é vossa,

Não vos ajoelha em solenidade.

Demasiada humana

Em causa, mata, morra, cura, ama,

E odeia.